Arinze, cardeal da Nigéria. A vez do Papa negro chegou?

por Redação NOTIBRAS

O cardeal nigeriano Francis Arinze é o favorito dos apostadores nas principais casas de apostas online que já estão a receber 'previsões' sobre o sucessor de Bento XVI, que anunciou hoje a resignação a partir de 28 de fevereiro.

A aposta parece ignorar a idade de Arinze, que já tem 80 anos, data limite para a participação no conclave que elegerá o sucessor de Bento XVI, e que deverá decorrer em março.

Arinze, prefeito Emérito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, lidera, no entanto, as apostas segundo uma compilação das probabilidades de vários sítios de apostas, realizado na página onlineda empresa Oddschecker.com.

Contrariando as apostas, na Europa, as primeiras especulações em torno do possível sucessor do papa Bento XVI indicam que um cardeal da Itália ou das Américas são os mais prováveis para ocupar o cargo máximo da Igreja Católica. A possibilidade de um papa africano parece reduzida, conforme as primeiras análises na imprensa francesa.

A saúde frágil de Joseph Ratzinger alimenta há anos os rumores sobre a sua sucessão, no Velho Continente. Há cerca de um ano, a promoção de 22 cardeais por Bento XVI para o Concílio do Vaticano – que, entre outras funções, elege o próximo papa – intensificou as apostas de que o pontífice preparava a própria sucessão: em sua maioria, os escolhidos eram europeus e conservadores, como o próprio Ratzinger.

Nenhum vinha da América Latina ou da África, e a metade eram cardeais da cúria, os ministros do papa. Dos 118 cardeais com direito a participar da escolha do próximo pontífice, 30 são italianos. Apenas 19 vêm da América Latina e 11, da África. O cardeal italiano Angelo Scola, arcebispo de Milão e muito próximo a Bento XVI, já vem de longa data sendo citado como um provável sucessor.

“Ainda não há um favorito, mas acho que um italiano hoje tem mais chances do que nunca”, afirmou Philippe Levillain, professor de História Contemporânea da Universidade Paris X, autor de diversas obras sobre a igreja católica, entrevistado pelo canal de televisão francês France Info. “Seria uma grande surpresa se o escolhido fosse um africano. Não por racismo, mas porque a igreja católica na África ainda é vista com desconfiança pelo Vaticano”, comentou, explicando que os cardeais africanos são de uma tendência “heterodoxa” da doutrina da igreja, especialmente em relação à vida pessoal ou sexual.

Assim como Levillain, outro especialista nas religiões, Odon Vallet, considera que as chances de um latino-americano suceder Bento XVI também são fortes. “A escolha de um cardeal latino-americano seria um sinal importante de renovação. O problema é que eles não conseguem se entender entre eles”, destacou o professor da Sorbonne. “Entretanto, existem divisões em todos os continentes, e a nacionalidade é um fator menos importante do que o respeito à linha que os cardeais querem dar para a igreja.”

Os problemas de saúde e a própria renúncia de Ratzinger reforçam a hipótese de que a idade do futuro sucessor vai ser um ponto essencial na escolha, apontam especialistas. O italiano Marco Politi, autor de obras sobre o Vaticano, lembrou ao jornal Le Monde que a Igreja Católica “precisa dar mais espaço aos jovens” e que “boa parte dos cardeais mais jovens vêm de países do sul”.

Já nas bolsas de apostas britânicas, os nomes de um africano, um italiano e um canadense despontam como os favoritos. Na William Hill, na Coral, na Paddy Power e na The bookmaker, as quatro principais, o nigeriano Francis Arinze é o que recebe mais apostas, seguido pelo ganense Peter Turkson e o canadense Marc Ouellet. Arinze já era o favorito das bolsas britânicas quando da sucessão de João Paulo II, em 2005.


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É possível que se acabe a época de papados eurocêntricos, que começou em 1978 com João Paulo II

Tudo o que se pode esperar da escolha do sucessor de Bento XVI é o fim de um Vaticano eurocêntrico. Desde que Karol Wojtyla tornou-se João Paulo II, a Europa é o centro das atenções da Cúria. O Papa polonês cumpriu uma fenomenal missão histórica ajudando a desmontar décadas de tolerância com as ditaduras comunistas. Seu sucessor teve um pontificado medíocre enrolado pela tolerância com escândalos sexuais e financeiros de sacerdotes. Um deles passou de raspão pelo Brasil, num trambique do namorado da atriz Anne Hathaway, sócio do sobrinho do atual decano do Colégio de Cardeais, o poderoso ex-secretário de Estado Angelo Sodano. A moça micou em US$ 135 mil e o rapaz foi preso nos Estados Unidos.

As dificuldades do Vaticano com suas finanças são antigas. Foi Pio IX quem avisou: “Posso ser infalível, mas estou falido.” Já os desempenhos sexuais de alguns sacerdotes, mesmo sendo coisa antiga, tornaram-se uma encrenca recente, com a qual João Paulo II e Bento XVI nunca conseguiram lidar direito, envenenando a missão pastoral de dioceses europeias e americanas.

O eurocentrismo da Cúria Romana refletiu-se no Brasil. Durante o pontificado de Paulo VI, Pindorama passou de dois para oito cardeais. Hoje tem cinco. Bento XVI deixou sem o barrete cardinalício as arquidioceses do Rio e de Brasília. Porto Alegre teve cardeal e está sem. Recife, a primeira sé cardinalícia brasileira, está na segunda divisão desde os anos 60, quando a ditadura hostilizava D. Helder Câmara e não queria vê-lo cardeal. Se foi econômico com os barretes brasileiros, Bento XVI foi generoso aspergindo-os pela Europa. Elevou a diocese de Valencia (800 mil habitantes), na Espanha, mas não confirmou o barrete de Porto Alegre (1,5 milhão de habitantes).

Quem especular o nome do sucessor de Ratzinger pode jogar cara ou coroa. Nos seis últimos conclaves elegeram-se três favoritos (Ratzinger, Paulo VI e Pio XII) e três azarões (João Paulo II, João Paulo I e João XXIII, um gorducho que mal cabia nas vestes preparadas pelos alfaiates que trabalharam durante o conclave.)

Pode-se esperar que, depois de um Papa saído da academia de teólogos e da burocracia de Roma, venha um pastor, como os dois João Paulo e João XXIII. Um administrador de diocese do Terceiro Mundo uniria o útil ao agradável. É assim que entra nas listas, com um sopro romano, o cardeal de São Paulo, D. Odilo Scherer, pastor de uma das maiores arquidioceses do mundo. Aos 63 anos, teria um longo pontificado. Ele tem uma característica anfíbia. É brasileiro, mas, como quatro outros cardeais brasileiros (Claudio Hummes, Paulo Evaristo Arns, Aloisio Lorscheider e Vicente Scherer, seu parente distante), descende da imigração alemã. A mola mestra da eleição dos dois últimos papas foi a capacidade de articulação da hierarquia alemã.

D. Odilo lidera a facção conservadora do clero brasileiro, derrotada na última eleição da CNBB e nas eleições gerais em que se meteu. Para consumo mundial, preenche o requisito de um Papa do Terceiro Mundo, condição só superável pela escolha de um africano como Francis Arinze, de Lagos. Mais que africano, Arinze tem 80 anos e passou 25 em Roma. Seria um Papa de transição.

Com uma eleição marcada para o fim de março e um Papa vivo, vem aí um conclave inesquecível.